O feminismo não errou; a masculinidade, sim
Série da Netflix é bem literal ao mostrar como a socialização masculina é misógina
Não sou e nem quero ser mãe, portanto, assisti à série "Adolescência", da Netflix, sem que o abutre da culpa materna sobrevoasse minha cabeça. Tampouco, como feminista, senti culpa. Creio que raiva é o sentimento que borbulhou no meu estômago.
Quando Jamie, o menino de 13 anos que assassinou uma colega, diz que decidiu chamar a vítima para sair porque ela estava fragilizada após sofrer um vazamento de fotos íntimas porque uma mulher vulnerável é mais fácil de "pegar" foi como se uma lâmina afiada arrancasse pedaços do meu fígado.
Depois de expor essa linha de pensamento, ele busca a aprovação de uma mulher, no caso, a psicóloga. Ora, se todo mundo estava chamando a garota de despeitada vagabunda, ele, que foi gentil e disse que os outros eram todos babacas, não era tão mau assim, né?
Dessa vez, foi como se estivessem espetando meu baço com uma agulha –homens querendo medalhas por serem só babacas em vez de MUITO babacas é cotidiano.
Se uso metáforas com vísceras e objetos cortantes é porque a série mexeu em feridas antigas e profundas que tem a ver com o "ser menina". Na minha época não existia Discord, Instagram, WhatsApp, deepfakes. Mas existia muita misoginia entre meus colegas.
Uma coisa que eles costumavam fazer muito, por exemplo, era humilhar as garotas fora do padrão estético ou de comportamento. Rebaixavam-nas, chamavam de feias, gordas, burras, peludas. Ah, mas eles também maltratavam aquelas dentro do padrão. Diziam para a bonita que ela não era tão bonita assim, para a moça de seios grandes que ela era uma galinha.
Nós tínhamos que navegar nesse mar de bullying, assédio e transtorno alimentar. Afinal, melhor enfiar o dedo na goela e vomitar do que eles nos chamarem de baleia.
Uma vez passei por situação semelhante à da menina Katie da série. Depois de terem me zoado durante semanas com um apelido relativo ao meu peso, um menino da outra turma pediu para ficar comigo –os amigos dele disseram que ele era apaixonado por mim, que até me seguiu até em casa, como dizer não?
Não fui gentil, afinal, meninas não são perfeitas e já naquela época fazia questão de não ser um doce. Disse que não ficaria com ele de jeito nenhum porque ele era feio. Ele, então, disse coisas horrorosas sobre minha aparência.
Minha experiência é individual, mas creio que muitas mulheres vão se identificar com situações desse tipo. Hoje, com 38 anos, sei que fui criada num caldo viscoso de misoginia.
Por isso penso que a série não é sobre "os perigos da internet" e sim sobre os perigos da masculinidade. A radicalização promovida pelas redes sociais é preocupante, mas ela acentua e afia um discurso sobre papeis de gênero que está aí há muito tempo.
Donde chego na questão: o feminismo errou ao não incluir homens no debate, como sugerido por minha colega, a também colunista Mariliz Pereira Jorge?
A resposta é não. Primeiro porque não é como se não tivéssemos tentados sucessivas vezes, no campo público ou no campo das relações. A Lei Maria da Penha, por exemplo, está aí há quase vinte anos, acompanhada de campanhas contra violência doméstica e vemos muito poucos homens envolvidos no debate público sobre esse assunto.
Quantas vezes já não tentamos explicar sobre consentimento? E quando falamos de assédio, gordofobia, quantas vezes já não fomos chamadas de chatas, barangas, amarguradas e mal comidas?
É difícil dialogar com quem não está muito a fim de ouvir. Afinal, para um homem, nos ouvir significaria ter de admitir que vive num espaço de privilégio em que pode contar com o trabalho doméstico não remunerado como se fosse ato de amor; admitir que já foi ou pelo menos tem um amigo que já foi violento com mulheres; admitir que não é justo que eles ganhem mais que nós; admitir que nossos corpos não são deles.
Dou um passo além. Na verdade, acho que muitos deles até nos ouviram durante esses anos todos, mas preferiram não levar em consideração. Ou levaram em consideração apenas como discurso para pegar mulher no campo ideológico da esquerda.
Há ainda os que nos ouviram e nos entenderam muito bem e resolveram criar e impulsionar discursos que nos ridicularizem, porque não querem correr o risco de a nossa luta prosperar e eles terem de, no mínimo, esfregar um banheiro.
Sendo assim, não foi o feminismo ou as feministas que erraram. Até porque atribuir às mulheres a tarefa de desconstruir a masculinidade é colocar mais um serviço na grande carga mental, emocional e física que mulheres carregam.
Quem errou foi a masculinidade e os homens estão, sim, errados e agindo como nossos inimigos quando se negam a discutir e elaborar a violência com que foram socializados –que vem tanto de exemplos de figuras paternas, familiares e amigos como da indústria cultural.
A série é, inclusive, muito literal ao atribuir boa parte da responsabilidade pelo ocorrido ao pai –e aqui pai representa não apenas aquele indivíduo, mas também a categoria homens em sua participação (ou falta dela) na criação de meninos. Não se esgota aí, afinal a cultura e o ambiente colegial também levam boas lapadas ao longo da história.
Se alguém ali representa o feminismo é a figura da psicóloga, chocada, sufocada e assustada diante da realidade enquanto tenta levar a conversa adiante. Ver culpa de feminista naquele bolo é esticar demais a corda da semiótica.
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